Por Carla De Assumpção
Existe algo desconfortável acontecendo na nossa geração.
A cada novo vazamento, a cada novo documento revelado sobre os arquivos de Jeffrey Epstein, o mundo experimenta o mesmo choque: nomes admirados, celebridades aclamadas, líderes reverenciados, associados a ambientes moralmente degradados.
Não é a primeira vez na história que o poder se mistura com o obscuro. Mas talvez seja a primeira vez que vemos, com tanta clareza, a engenharia da idolatria funcionando em escala global.
E as perguntas inevitáveis são:
— Por que continuamos precisando de ídolos?
— O que realmente conhecemos sobre alguém?
O público conhece a performance, o talento, o discurso, o personagem. Mas não conhece o quarto fechado, os bastidores, os silêncios.
Toda figura pública administra cuidadosamente o que deixa visível. Isso não é necessariamente fraude. É estratégia de imagem. É comunicação. É branding.
Você, que é empreendedor, sabe: ninguém expõe 100% da própria vida.
Mas há uma diferença abissal entre preservar a intimidade e construir uma persona que mascara desvios éticos graves.
Os arquivos de Jeffrey Epstein não revelaram apenas crimes. Revelaram a fragilidade da projeção coletiva.
Idolatria: um fenômeno psicológico e espiritual
Idolatria não é admiração.
Admiração é reconhecer virtudes.
Idolatria é transferir identidade.
Quando alguém se torna um “intocável”, um “acima da suspeita”, um “escolhido”, estamos diante de um fenômeno perigoso.
A idolatria cria:
- Cegueira seletiva
- Negação de evidências
- Defesa irracional
- Ataque a quem questiona
Ela suspende o senso crítico. E quando isso acontece, o poder encontra terreno fértil.
O poder do tráfego sexual e as redes de influência
Casos como o de Epstein expuseram algo estrutural: o tráfico sexual de alto nível não é sustentado apenas por criminosos isolados.
Ele prospera em ambientes de:
- Dinheiro extremo
- Influência política
- Blindagem social
- Cultura de silêncio
- Fascínio pelo poder
O poder sexual, quando distorcido, se torna instrumento de dominação.
E a idolatria serve como escudo. Porque quanto mais uma sociedade idolatra alguém, menos questiona seus acessos, seus privilégios, seus círculos privados.
O escândalo não é apenas jurídico. É simbólico. Ele revela como sistemas inteiros se protegem mutuamente.
— A separação entre obra e autor: é possível?
Essa é uma das questões mais delicadas.
— É possível admirar o talento de alguém e repudiar seus atos?
Sim, mas com maturidade emocional.
Uma obra pode ter valor. Um trabalho pode ser tecnicamente brilhante. Uma contribuição pode ter impacto real. Mas isso não transforma o autor em modelo moral.
O problema surge quando confundimos competência com caráter. Quando sucesso se torna sinônimo de integridade. Quando talento vira sinônimo de santidade. Essa confusão alimenta a idolatria.
— Quem ganha com a idolatria?
O mercado, que vende imagem. A mídia, que monetiza narrativas. As plataformas, que amplificam personas. O próprio ídolo, que acumula capital simbólico.
— E o público?
O público ganha entretenimento, inspiração e, muitas vezes, desilusão.
A idolatria é lucrativa. Ela cria consumo emocional. Quanto mais elevado o pedestal, maior o impacto da queda. E quedas vendem.
A sombra que todos carregamos
Há uma verdade desconfortável que poucos querem encarar: A idolatria externa reflete uma carência interna.
Projetamos no outro aquilo que não desenvolvemos em nós. Atribuímos perfeição porque precisamos acreditar que alguém a possui.
Mas todo ser humano tem sombra. Todo ser humano é capaz de grandeza e de degradação.
A diferença está em limites, consciência e responsabilidade.
Para líderes e empreendedores: um alerta necessário
Se você ocupa posição de liderança, atenção: O pedestal é uma armadilha.
Quanto mais pessoas o enxergam como referência absoluta, maior o risco de isolamento moral.
O poder sem fiscalização interna se corrompe.
A idolatria que você recebe pode ser o início da sua desconexão com a própria humanidade.
O caminho saudável: maturidade, não idolatria
Admirar é saudável. Inspirar-se é legítimo. Reconhecer talento é justo. Mas idolatrar é perigoso.
A maturidade consiste em:
- Separar competência de caráter
- Questionar sem medo
- Evitar colocar qualquer humano em posição divina
- Manter senso crítico mesmo diante do brilho
Os arquivos de Jeffrey Epstein não são apenas um capítulo criminal da história contemporânea. São um espelho.
Um espelho que pergunta:
— Você admira ou idolatra?
Porque quando transformamos pessoas em deuses, abrimos espaço para que monstros se escondam atrás da luz.
E a luz artificial sempre projeta sombras mais densas.
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