Ídolos, Sombras e Arquivos: O Perigo Silencioso da Idolatria na Era do Escândalo

Humanismo 0 Comentários 10/02/2026 08:00 Carla D' Avila De Assumpção

Por Carla De Assumpção

Existe algo desconfortável acontecendo na nossa geração.

A cada novo vazamento, a cada novo documento revelado sobre os arquivos de Jeffrey Epstein, o mundo experimenta o mesmo choque: nomes admirados, celebridades aclamadas, líderes reverenciados, associados a ambientes moralmente degradados.

Não é a primeira vez na história que o poder se mistura com o obscuro. Mas talvez seja a primeira vez que vemos, com tanta clareza, a engenharia da idolatria funcionando em escala global.

E as perguntas inevitáveis são:

— Por que continuamos precisando de ídolos?

— O que realmente conhecemos sobre alguém?

O público conhece a performance, o talento, o discurso, o personagem. Mas não conhece o quarto fechado, os bastidores, os silêncios.

Toda figura pública administra cuidadosamente o que deixa visível. Isso não é necessariamente fraude. É estratégia de imagem. É comunicação. É branding.

Você, que é empreendedor, sabe: ninguém expõe 100% da própria vida.

Mas há uma diferença abissal entre preservar a intimidade e construir uma persona que mascara desvios éticos graves.

Os arquivos de Jeffrey Epstein não revelaram apenas crimes. Revelaram a fragilidade da projeção coletiva.

Idolatria: um fenômeno psicológico e espiritual

Idolatria não é admiração.

Admiração é reconhecer virtudes.

Idolatria é transferir identidade.

Quando alguém se torna um “intocável”, um “acima da suspeita”, um “escolhido”, estamos diante de um fenômeno perigoso.

A idolatria cria:

- Cegueira seletiva

- Negação de evidências

- Defesa irracional

- Ataque a quem questiona

Ela suspende o senso crítico. E quando isso acontece, o poder encontra terreno fértil.

O poder do tráfego sexual e as redes de influência

Casos como o de Epstein expuseram algo estrutural: o tráfico sexual de alto nível não é sustentado apenas por criminosos isolados.

Ele prospera em ambientes de:

- Dinheiro extremo

- Influência política

- Blindagem social

- Cultura de silêncio

- Fascínio pelo poder

O poder sexual, quando distorcido, se torna instrumento de dominação.

E a idolatria serve como escudo. Porque quanto mais uma sociedade idolatra alguém, menos questiona seus acessos, seus privilégios, seus círculos privados.

O escândalo não é apenas jurídico. É simbólico. Ele revela como sistemas inteiros se protegem mutuamente.

— A separação entre obra e autor: é possível?

Essa é uma das questões mais delicadas.

— É possível admirar o talento de alguém e repudiar seus atos?

Sim, mas com maturidade emocional.

Uma obra pode ter valor. Um trabalho pode ser tecnicamente brilhante. Uma contribuição pode ter impacto real. Mas isso não transforma o autor em modelo moral.

O problema surge quando confundimos competência com caráter. Quando sucesso se torna sinônimo de integridade. Quando talento vira sinônimo de santidade. Essa confusão alimenta a idolatria.

— Quem ganha com a idolatria?

O mercado, que vende imagem. A mídia, que monetiza narrativas. As plataformas, que amplificam personas. O próprio ídolo, que acumula capital simbólico.

— E o público?

O público ganha entretenimento, inspiração e, muitas vezes, desilusão.

A idolatria é lucrativa. Ela cria consumo emocional. Quanto mais elevado o pedestal, maior o impacto da queda. E quedas vendem.

A sombra que todos carregamos

Há uma verdade desconfortável que poucos querem encarar: A idolatria externa reflete uma carência interna.

Projetamos no outro aquilo que não desenvolvemos em nós. Atribuímos perfeição porque precisamos acreditar que alguém a possui.

Mas todo ser humano tem sombra. Todo ser humano é capaz de grandeza e de degradação.

A diferença está em limites, consciência e responsabilidade.

Para líderes e empreendedores: um alerta necessário

Se você ocupa posição de liderança, atenção: O pedestal é uma armadilha.

Quanto mais pessoas o enxergam como referência absoluta, maior o risco de isolamento moral.

O poder sem fiscalização interna se corrompe.

A idolatria que você recebe pode ser o início da sua desconexão com a própria humanidade.

O caminho saudável: maturidade, não idolatria

Admirar é saudável. Inspirar-se é legítimo. Reconhecer talento é justo. Mas idolatrar é perigoso.

A maturidade consiste em: 

- Separar competência de caráter

- Questionar sem medo

- Evitar colocar qualquer humano em posição divina

- Manter senso crítico mesmo diante do brilho

Os arquivos de Jeffrey Epstein não são apenas um capítulo criminal da história contemporânea. São um espelho.

Um espelho que pergunta:

— Você admira ou idolatra?

Porque quando transformamos pessoas em deuses, abrimos espaço para que monstros se escondam atrás da luz.

E a luz artificial sempre projeta sombras mais densas.


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